Como alfabetizar uma criança?

Esta é uma pergunta que fica na cabeça de muitos familiares. Quando colocam seus filhos na escola de educação infantil. Os questionamentos em geral são:

– como a criança aprende?
– como posso ajudar?
– ela só está alfabetizada quando escreve com letra cursiva?
– é comum ”comer letras”, ou escrever algumas letras ao contrário?
– qual a idade certa para começar a ler e escrever?

São perguntas que demonstram uma preocupação verdadeira com a aprendizagem da criança, mas é preciso tomar cuidado com nossa ansiedade, porque as vezes mais atrapalhamos do que ajudamos.
Existem várias propostas pedagógicas para trabalhar com a alfabetização, mas a que temos como referência é aquela que trata a leitura e escrita de forma natural, propiciando o contato da criança, desde bem pequena, com o uso das palavras em nosso cotidiano.

Para exemplificar: leia o que está escrito nesta imagem:

 

Você sabe ler em russo? O que representa esta imagem? O que está escrito nas embalagens?
Pode ser que você tenha achado que é um texto publicitário, pois a composição das palavras com as imagens lembra uma propaganda. Pode ser também que você tenha levantado a hipótese de se tratar de um anúncio de fraldas, pelo fato de haver um bebê, usando fralda e pelas embalagens destacadas. Pode ser também que você tenha certeza de sua hipótese porque você já viu rótulos com a marca Pampers em farmácias e mercados…
Parabéns, você leu e entendeu uma propaganda escrita em russo!
Brincadeiras à parte você fez uma leitura sim, porém ampla, global e não detalhada, letra por letra; além disso para fazer esta leitura você se baseou nas suas vivências pessoais (no contato com propagandas, seu conhecimento de bebês, conhecimento da marca de fraldas etc.). E é assim que a criança faz no seu dia a dia. As letras e palavras escritas em português, que aparecem na TV, nas revistas, nas propagandas, nos cartazes de cinema, são como letras chinesas ou russas para nós; e assim como você a criança age do mesmo jeito para tentar compreender as muitas informações que tem ao seu redor.
Nós somos de uma geração que aprendia da parte para a o todo (partindo da vogal para o texto), e esta é uma geração, que vai do todo para as partes. As crianças são nativas digitais, e já tem uma forma diferente de pensar; enquanto nós tínhamos que ser mais lineares, um passo de cada vez, elas abrem e interagem com várias janelas, várias informações ao mesmo tempo. Claro que existem prós e contras para esta situação elas também precisam aprender a focar em determinadas situações para não se perderem e ficarem sem referência, daí a importância da escola e da família para ajudá-la (isto é assunto para uma outra conversa).
Mas voltando à alfabetização, quando falamos com a criança não falamos soletrando, ela escuta a palavra dentro de um contexto, não soletramos “cadeira” para ela entender qual sua função, nós demonstramos dizendo: não pule da cadeira ou vai se machucar; vamos arrumar a mesa pro almoço, puxe aquela cadeira para cá… ela aprende a falar, falando e escutando as pessoas próximas a ela.
E como ela aprende a ler e escrever? Lendo e escrevendo! Inicialmente do jeito dela, mas aos poucos com tentativas e erros e as orientações da professora ela vai construindo uma escrita formal. Como exemplo: a criança vê a placa com o nome da escola todos os dias e apesar de não ler letra por letra, sabe que ali está escrito Paulo de Tarso; depois de um tempo ao ir até o mercado Pão de Açúcar contigo, ela olha e diz que o mercado também se chama Paulo de Tarso. O que ela fez? Ela reconheceu o P e o A e num primeiro momento, onde ela observar estas letras, vai associar com o nome de sua escola. Ela fez uma leitura!
Num primeiro momento ela reconhece Paulo de Tarso e fixando estas palavras ela vai começar a relacioná-la com outras que tem a mesma grafia; num segundo momento vai perceber que as letras representam os sons e tem uma sequência para produzir uma palavra (uma coisa é eu escrever Paulo, outra escrever Paula, outra escrever Pulo e por aí vai). Este processo não é mágico, é necessário é que, desde pequena a criança tenha contato com portadores de texto, que ela escute histórias, que veja as pessoas escrevendo e lendo ao seu redor para ir percebendo qual a função da escrita em nossa sociedade.
A escola procura dinamizar bastante, fazendo a aproximação com a leitura e escrita de forma lúdica e prazerosa; é muito comum trabalharmos com o nome próprio e outros nomes de pessoas, coisas e lugares que elas gostem para que se interessem em escrever e lê-los (nome dos pais e familiares, dos bichinhos de estimação, dos personagens de filmes e desenhos, dos dinossauros, que todas amam etc.). Elas são muito inteligentes e atentas e aprendem cada uma dentro de seu próprio ritmo. Têm crianças que vão se apropriando aos poucos e tem outras que aparentemente demoram um pouco mais, no entanto quando menos se espera elas se apropriam dos códigos que foram estimulados pela professora durante o ano todo.
Você quer ajudar? Então leia para ela: livros, placas com nomes de ruas, nomes de lojas, mercados, bancos, nomes escritos nas embalagens que possui em casa etc. Este movimento faz com que ela associe palavras, grafias e sons dentro de seu uso cotidiano. Como dissemos existem outras formas de alfabetizar, mas o que percebemos nesta forma de ensinar, é que a criança além de aprender a ler e escrever está tomando contato com bons, textos, boas histórias e assim ampliando seu repertório cultural. Ela não está só juntando letras para repetir sons, mas sim interpretando, aprendendo, dando opiniões, enfim LENDO de verdade.
P.S. falaremos sobre a grafia das letras num próximo post.

Altamar Carvalho, psicólogo, educador e diretor da Caburé Assessoria Pedagógica

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